No caso de Siruiz, as palavras soaram, pela primeira vez, numa canção: Riobaldo, contador do Grande sertão: veredas, órfão de mãe, é levado a morar com seu padrinho Selorico Mendes, na fazenda São Gregório. Anos passados, já moço, vive seu segundo rito de passagem - o primeiro fora o da meninice para a adolescência. O de agora vai levá-lo ao mundo em torvelinho, às travessias, sempre turbulindo, do sertão. E foi assim, fragmentos escolhidos na voz dele, que narra pra si e pra um visitante de sua casa-de-fazenda e de sua velhice:
Era mês de maio, em má lua, o frio fiava.
Aí mês de maio, falei, com a estrela-d’alva. O orvalho pripingando, baciadas. E os grilos no chirilim. De repente, de certa distância, enchia espaço aquela massa forte, antes de poder ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros. Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem.
Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos sacudidos, o pêlo deles, de suor velho, semeado das poeiras do sertão.
Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos, que nem o dum grande rio, do aflor. A bem dizer, aquela gente estava toda calada. Mas uma sela range de seu, tine um arreaz, estribo, e estribeira, ou o coscós, quando o animal lambe o freio e mastiga. Couro raspa em couro, os cavalos dão de orelha ou batem com o pé. Daqui, dali, um sopro, um meio-arquejo.
Soubesse sonhasse eu?
A gente se encostava no frio, escutava o orvalho, o mato cheio de cheiroso, estalinho de estrelas, o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso. Dava o raiar, entreluz da aurora, quando o céu branquece. Ao o ar indo ficando cinzento, o formar daqueles cavaleiros, escorrido, se divisava. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade.
Nós, leitores atentos, a passo e passo, nos damos conta de que a voz de Riobaldo está recriando um cenário de vivência dos cinco sentidos simultâneos: como ele, narrador-protagonista, nós somos adentrados por uma sinfonia de cheiros, de toques no tato - texturas, temperaturas -, de miríades sonoras. Mesmo a visão, no lusco-fusco da antemanhã, vai se apercebendo, dos vultos, das entreformas. Do gosto não se falou?! Ah, o gosto era: a saudade na boca.
E então, misencenação toda pronta, a epifania. Melhor dizer: epifonia:
...agora, eles conversavam, alguns riam, diziam graças. Presumi que estavam muito contentes de ganhar o repouso de horas, pois tinham navegado na sela a noite toda. Um falou mais alto, aquilo era bonito e sem tino: – “Siruiz, cadê a moça virgem?” Largamos a estrada, no capim molhado meus pés se lavavam.
Algum, aquele Siruiz, cantou, palavras diversas, para mim a toada toda estranha:
Urubu é vila alta,
mais idosa do sertão:
padroeira, minha vida –
vim de lá, volto mais não...
Vim de lá, volto mais não?...
Corro os dias nesses verdes,
meu boi mocho baetão:
buriti –água azulada,
carnaúba – sal do chão...
Remanso de rio largo,
viola da solidão:
quando vou p’ra dar batalha,
convido meu coração...
Vinham quebrando as barras. Dia de maio, com orvalho, eu disse. Lembrança da gente é assim.
Apois. Siruiz convida seu coração dele, leva de roldão o de Riobaldo. E o nosso...
Como sempre, as suas palavras entrando pelos cinco sentidos provocam a vontade de saber muito mais sobre o universo ao qual elas pertencem. Meu medo de ler Grande Sertao está sendo rapidamente substituido pela vontade imensa de compartilhar essa sua admiraçao pela obra. Que gostoso...
ResponderExcluirAndrea Mattioli Rodrigues