Os torturadores e assassinos nazistas e seus congêneres stalinistas
praticaram seu terror sobre seres de nossa espécie. Que nós, sem o menor
peso na consciência, o façamos com nossos irmãos não humanos, é de
estarrecer no mesmo grau - e, talvez, num grau mais tenebroso ainda.
Esse vídeo - e a consciência aguçada pela dor compartilhada com os
pequeninos emplumados e pela compaixão por eles - este vídeo pode MUITO
bem nos levar a uma mudança radical: a de não/nunca/jamais sermos
cúmplices do Mal.
Assistam, amigos, estas imagens, com coragem e coração!
sendas de siruiz
Veredeiro dos Gerais, alumbrado no Recife dos primos Manuel e João Cabral, enformado no movimento do Cão-Mestre Pignatari, sobrevivente do HorrortheHorror do Conrad, nadador do córgo do Garbeloto... Deus esteja!
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Duas vozes para a "Canção de Siruiz"
No Grande sertão, a canção de Siruiz nos chega ou pelos nossos olhos leitores, ou por nossos ouvidos, - se emprestamos nossa voz à narração de Riobaldo. Mas, seja lida, seja declamada, a canção, no livro, é só a letra - é poema, não é canto. Até que um grande leitor de Guimarães Rosa, o carioca-mas-praticamente-mineiro Antonio Cândido dá melodia aos versos de Siruiz. Nas palavras do crítico e professor:
"...transpus para os versos de Guimarães Rosa a melodia de uma velha canção
mineira que minha mãe ouvia em menina, entre 1900 e 1906, na cidade de
Barbacena, onde morava então com a sua família. Era cantada por um lavador
de assoalhos, Antonio Lino, entre outras que ficaram em nossa memória familiar.
A letra original é a seguinte:
A letra original é a seguinte:
Gente vamo rezá – Por alma do Pai Carreiro,
Que lá vai subindo o morro – Sem carro e sem candeeiro.
Por isso mesmo – Eu não quero carreá,
O carreiro pega o boi – Mas não pega o marruá,
O carreiro pega o boi – Mas não pega o marruá.
Você pega o boi pintado – na porteira do currá."Mas o contado pelo professor Cândido é história que esconde estória. Senão, miremos e vejamos: os acontecimentos narrados por Riobaldo em Grande sertão: veredas transcorrem na passagem do século XIX para o XX. Ou seja, em anos que coincidem com a meninice da mãe de Antonio Cândido a viver na mineira Barbacena. Donde: não se duvide: o então, de paz, lavador de assoalhos Antonio Lino, o cantador caseiro, certamente fizera parte do bando no qual também jagunceara o poeta-cantor Siruiz!
De donde, então: Lino, nas barrancas da velhice, perdera da lembrança a letra, mas preservara, integral, a melodia que ouvira o companheiro Siruiz entoar.
Essa mandala em espiral se fecha com o Antonio-a-nascer-daquela-menina-mineira, que devolverá ao texto original de Siruiz a melodia em que era cantado pelo jagunço-poeta.
Isto é, ou seja: história ou estória, tudo renasce é na memória.
Essa mandala em espiral se fecha com o Antonio-a-nascer-daquela-menina-mineira, que devolverá ao texto original de Siruiz a melodia em que era cantado pelo jagunço-poeta.
Isto é, ou seja: história ou estória, tudo renasce é na memória.
Em brindemos, portanto, com Siruiz psicofonografado por Antonio Cândido (no cd Sons do Grande sertão):
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u416656.shtml
E interpretado por Wilson Dias:
http://www.youtube.com/watch?v=0S_okLOCaY0
Laus Nossa Senhora da Abadia!
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u416656.shtml
E interpretado por Wilson Dias:
http://www.youtube.com/watch?v=0S_okLOCaY0
Laus Nossa Senhora da Abadia!
sábado, 8 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
2. O nome Sendas de Siruiz nasceu de trás pra diante: o ponto de partida - Siruiz - assoviou direto a aliteração de sendas. A existência desse sinônimo de veredas é um presente que a linguagem volta e meia nos oferece - como ensina o Itabirano: "Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos." Tem mais: além da sibilação, os S inicial e final desenham nos olhos as curvaS e recurvaS, os requebroS e quebradaS das veredaS roseanas em cujas águas, humilde-mas-impávido, buscarei beber as palavras com que regar meus escritos.
No caso de Siruiz, as palavras soaram, pela primeira vez, numa canção: Riobaldo, contador do Grande sertão: veredas, órfão de mãe, é levado a morar com seu padrinho Selorico Mendes, na fazenda São Gregório. Anos passados, já moço, vive seu segundo rito de passagem - o primeiro fora o da meninice para a adolescência. O de agora vai levá-lo ao mundo em torvelinho, às travessias, sempre turbulindo, do sertão. E foi assim, fragmentos escolhidos na voz dele, que narra pra si e pra um visitante de sua casa-de-fazenda e de sua velhice:
Era mês de maio, em má lua, o frio fiava.
No caso de Siruiz, as palavras soaram, pela primeira vez, numa canção: Riobaldo, contador do Grande sertão: veredas, órfão de mãe, é levado a morar com seu padrinho Selorico Mendes, na fazenda São Gregório. Anos passados, já moço, vive seu segundo rito de passagem - o primeiro fora o da meninice para a adolescência. O de agora vai levá-lo ao mundo em torvelinho, às travessias, sempre turbulindo, do sertão. E foi assim, fragmentos escolhidos na voz dele, que narra pra si e pra um visitante de sua casa-de-fazenda e de sua velhice:
Era mês de maio, em má lua, o frio fiava.
Aí mês de maio, falei, com a estrela-d’alva. O orvalho pripingando, baciadas. E os grilos no chirilim. De repente, de certa distância, enchia espaço aquela massa forte, antes de poder ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros. Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem.
Respirei: a gente sorvia o bafejo – o cheiro de crinas e rabos sacudidos, o pêlo deles, de suor velho, semeado das poeiras do sertão.
Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim – feito de uma porção de barulhinhos pequenos, que nem o dum grande rio, do aflor. A bem dizer, aquela gente estava toda calada. Mas uma sela range de seu, tine um arreaz, estribo, e estribeira, ou o coscós, quando o animal lambe o freio e mastiga. Couro raspa em couro, os cavalos dão de orelha ou batem com o pé. Daqui, dali, um sopro, um meio-arquejo.
Soubesse sonhasse eu?
A gente se encostava no frio, escutava o orvalho, o mato cheio de cheiroso, estalinho de estrelas, o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso. Dava o raiar, entreluz da aurora, quando o céu branquece. Ao o ar indo ficando cinzento, o formar daqueles cavaleiros, escorrido, se divisava. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade.
Nós, leitores atentos, a passo e passo, nos damos conta de que a voz de Riobaldo está recriando um cenário de vivência dos cinco sentidos simultâneos: como ele, narrador-protagonista, nós somos adentrados por uma sinfonia de cheiros, de toques no tato - texturas, temperaturas -, de miríades sonoras. Mesmo a visão, no lusco-fusco da antemanhã, vai se apercebendo, dos vultos, das entreformas. Do gosto não se falou?! Ah, o gosto era: a saudade na boca.
E então, misencenação toda pronta, a epifania. Melhor dizer: epifonia:
...agora, eles conversavam, alguns riam, diziam graças. Presumi que estavam muito contentes de ganhar o repouso de horas, pois tinham navegado na sela a noite toda. Um falou mais alto, aquilo era bonito e sem tino: – “Siruiz, cadê a moça virgem?” Largamos a estrada, no capim molhado meus pés se lavavam.
Algum, aquele Siruiz, cantou, palavras diversas, para mim a toada toda estranha:
Urubu é vila alta,
mais idosa do sertão:
padroeira, minha vida –
vim de lá, volto mais não...
Vim de lá, volto mais não?...
Corro os dias nesses verdes,
meu boi mocho baetão:
buriti –água azulada,
carnaúba – sal do chão...
Remanso de rio largo,
viola da solidão:
quando vou p’ra dar batalha,
convido meu coração...
Vinham quebrando as barras. Dia de maio, com orvalho, eu disse. Lembrança da gente é assim.
Apois. Siruiz convida seu coração dele, leva de roldão o de Riobaldo. E o nosso...
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Assim, ao léu...
1. Pensando bem, faz uns quase cinquent'anos que eu queria começar um blog... Mas, se manhãs havia naquele tempo, blog nem palavra era. O que eu queria mesmo: publicar meus textos. Naqueles dias, "meus textos" não passava dos que eu lia. Meus, meus próprios, nem sementes eram, pra o germinar futuro. Ah, e quem me dizia que isso importava?! Coisíssima!... Eu queria publicá-los mesmo sem existirem. Eu queria, acho, era publicar a mim mesmo... O que pode fazer pensar que eu desejava me lançar no mundo, passar a existir, fiat Marius! Virar estória antes de história ser...
Foi assim que pensaram? Mas não, não era isso, não. É que eu já existia demais... E queria publicar essa minha demasia, contemplá-la feita de morros, aves, cúmulos e nimbos - tudo palavras!
Oremus...
Foi assim que pensaram? Mas não, não era isso, não. É que eu já existia demais... E queria publicar essa minha demasia, contemplá-la feita de morros, aves, cúmulos e nimbos - tudo palavras!
Oremus...
Assinar:
Postagens (Atom)

