terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Duas vozes para a "Canção de Siruiz"

No Grande sertão, a canção de Siruiz nos chega ou pelos nossos olhos leitores, ou por nossos ouvidos, - se emprestamos nossa voz à narração de Riobaldo. Mas, seja lida, seja declamada, a canção, no livro, é só a letra - é poema, não é canto. Até que um grande leitor de Guimarães Rosa, o carioca-mas-praticamente-mineiro Antonio Cândido dá melodia aos versos de Siruiz. Nas palavras do crítico e professor:

"...transpus para os versos de Guimarães Rosa a melodia de uma velha canção
mineira que minha mãe ouvia em menina, entre 1900 e 1906, na cidade de
Barbacena, onde morava então com a sua família. Era cantada por um lavador
de assoalhos, Antonio Lino, entre outras que ficaram em nossa memória familiar.
A letra original é a seguinte:

Gente vamo rezá – Por alma do Pai Carreiro,
Que lá vai subindo o morro – Sem carro e sem candeeiro.
Por isso mesmo – Eu não quero carreá,
O carreiro pega o boi – Mas não pega o marruá,
O carreiro pega o boi – Mas não pega o marruá.
Você pega o boi pintado – na porteira do currá."

Mas o contado pelo professor Cândido é história que esconde estória. Senão, miremos e vejamos: os acontecimentos narrados por Riobaldo em Grande sertão: veredas transcorrem na passagem do século XIX para o XX. Ou seja, em anos que coincidem com a meninice da mãe de Antonio Cândido a viver na mineira Barbacena. Donde: não se duvide: o então, de paz, lavador de assoalhos Antonio Lino, o cantador caseiro, certamente fizera parte do bando no qual também jagunceara o poeta-cantor Siruiz!
De donde, então: Lino, nas barrancas da velhice, perdera da lembrança a letra, mas preservara, integral, a melodia que ouvira o companheiro Siruiz entoar.
Essa mandala em espiral se fecha com o Antonio-a-nascer-daquela-menina-mineira, que devolverá ao texto original de Siruiz a melodia em que era cantado pelo jagunço-poeta.

Isto é, ou seja: história ou estória, tudo renasce é na memória.

Em brindemos, portanto, com Siruiz psicofonografado por Antonio Cândido (no cd Sons do Grande sertão):

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u416656.shtml

E interpretado por Wilson Dias:

http://www.youtube.com/watch?v=0S_okLOCaY0



Laus Nossa Senhora da Abadia!